27 November 2013

Comentários de Jacques Marcovitch sobre o livro "Onde estão as flores?" de Ilko Minev

Uma lição de esperança
Jacques Marcovitch



A partir dos clássicos inesquecíveis de Primo Levi ganharam destaque, em todo o mundo, a memorialística e a ficção de autores judeus inspiradas nos acontecimentos dos anos 1930 e 1940.

Guiadas pelo mesmo fio condutor da verdade, muitas obras pós‐Levi conquistaram grande acolhida por leitores das mais diversas nacionalidades. Aqui no Brasil, como sabemos, vieram à luz trabalhos de grande valor em torno do tema. Um deles, mais recentemente, foi o romance de Ilko Minev. As páginas de “Onde estão as flores” inscrevem-se entre as mais pulsantes e motivadoras de reflexão.

Transformar desventuras em patrimônio de uma vida significativa é a lição que Licco Hazan, personagem da trama em análise, transmite aos acompanhantes de sua trajetória.

Nascido em Sofia, Hazan vive sua adolescência no período que Timothy Snyder aponta como a mais terrível calamidade moral e demográfica na história moderna. Uma catástrofe marcada por assassinatos em massa pelos regimes nazista e soviético nos períodos em que ganharam ímpeto.

Imigrante judeu búlgaro, Licco conta como sobreviveu aos seus poderosos carrascos para se tornar décadas depois, o pioneiro capaz de erigir um legado que transcende sua existência.

Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove anos idade, ele é conduzido, ainda jovem, aos campos de trabalhos forçados, onde aprende a lidar com os infortúnios para sobreviver.

De Sofia a Istambul, obtém um visto de entrada para o Brasil e segue pelo estreito de Gibraltar para o Porto de Santos. Ali não chegam, nem ele, nem sua amada Berta. Transportados por um navio à deriva, são forçados a desembarcar em Belém do Pará.

Ele mecânico, ela contadora, estabelecem‐se para conquistar novos horizontes, amparados por seus valores e pela disposição de trabalhar. Valores forjados no convívio com os descendentes da comunidade de judeus marroquinos que emigraram para Amazônia.

Iniciava-se, então, uma nova fase institucional no Brasil com a sua independência em 1822. A Constituição Federal de 1824 já assegurava a liberdade religiosa e valorizava o mérito, como descreve Maria Luiza Tucci Carneiro em sua obra “Brasil Judaico: Mosaico de Nacionalidades” (Editora Maayanot, 2013).

A rica narrativa da travessia do Atlântico lembra os figurantes da tela “Navio de Emigrantes”, de Lasar Segall, que retrata, nesta grandiosa alegoria da emigração, diferentes tipos humanos em viagem para o Novo Mundo.

Eram ocupantes do mesmo barco cuja diversidade de origens produziam o ruidoso cruzamento. Notado por Licco Hazan, “dos idiomas iídiche, alemão, russo, árabe, grego holandês, francês, tcheco, búlgaro, sérvio, espanhol, húngaro, português, inglês e línguas escandinavas”.

Esperançosos, apesar da fragilidade de seus destinos, tornaram-se perseverantes e realizaram seus sonhos.

Passaram a ser fontes de aprendizagem e inspiração, conquistando uma segunda vida na mente dos seus descendentes.

Em poucos anos estudaram e conheceram as possibilidades do novo mundo que passaram a habitar. Fizeram-se importantes exportadores do óleo de pau-rosa, fixador utilizado na indústria de cosméticos, e do bálsamo de copaíba com suas propriedades anti‐inflamatórias e das sementes de cumaru apreciadas pelo seu aroma.

Enfrentam, na Amazônia, a barreira de outros hábitos e idioma, costumes e regras sociais. Com isso, desenvolvem o respeito pelo outro, alcançam resultados inconcebíveis nas suas caminhadas e desenvolvem uma capacidade incomum de resiliência.

Sua experiência leva-os a formular a síntese da boa gestão com palavras singelas e exatas: “Uma boa administração tem muito a ver com bom senso, honestidade e simplicidade”. Ou “quando se acerta no alvo em algum negócio ou produto, os lucros vêm rápido. Da mesma forma os erros geram prejuízos implacáveis, então é preciso estancar o sangramento, não se pode ter pena. Tem que cortar na carne, engolir o prejuízo e seguir em frente”.

A crença dos personagens no Brasil é inabalável. Afirmam que o remédio para os males nacionais estão em três prioridades: simplificação tributária, reforma política para melhorar a governança pública e desburocratização da legislação ambiental.

Expostos desde jovens a adversidades e choques culturais, sua infância e adolescência foram marcadas por momentos de tensões e penúria na vida pessoal que os levaram a tentar obstinadamente, com êxito, uma vida de superação.

Em vez de se conformar às aparentes impossibilidades, aprenderam a localizar a saída no labirinto da vida. Confirmaram, com seus movimentos, que apesar de todos os infortúnios é possível construir uma vida significativa e contribuir para um mundo melhor.

O romance “Onde estão as flores”, de Ilko Minev, é obra de consulta indispensável para estudiosos dos fluxos migratórios que chegaram ao Brasil e contribuíram para o desenvolvimento de uma nova pátria. Leitura recomendável para educadores e jovens empenhados na construção de seus projetos de vida.

Livro: Onde estão as flores? Autor : Ilko Minev
Editora Virgilae, 2014

Lancamento 02.12.13 na Livraria da Vila Shopping Higienopolis, São Paulo
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