20 June 2013

Cidadãos, barricadas e a vaia que eclodiu sobre a nação

Artigo publicado no Jornal A Crítica em 20 de junho de 2013 - por Denis Benchimol Minev - denis.minev@gmail.com


O Brasil ouviu nesta semana uma vaia que ecoou do Oiapoque ao Chuí.  Somos (ou éramos) um país ainda de excessivo respeito à autoridade; a afronta pública da líder da nação mostrou ao brasileiro a possibilidade de enfrentamento direto, pessoal e intransferível, que é característica de democracias mas ausente na psico-formação do brasileiro.  

Nós cidadãos do Brasil historicamente não nos levantamos.  Os grandes atos de nossa história, antiga e recente (independência, proclamação da república, fim do governo militar, impeachment do Collor, dentre outros), foram construídos por acordos políticos e não por pressão popular esmagadora.  Exemplos: Collor incrivelmente nunca foi preso e foi permitido seu retorno ao Senado; nenhum militar, não importa o quão hediondos seus crimes durante a ditadura, foi preso por isso; os militares controlaram, a seu próprio ritmo, a redemocratização do país; nem mesmo nossa querida independência foi alcançada por vontade popular, mas sim por um acordo de pai para filho; a proclamação da república foi feita sem sangue, no tempo do monarca e não da vontade do povo; nem guilhotinamos o imperador, o deixamos fugir em paz.  Mais recentemente o Mensalão também não causou grande comoção social, afora postagens em redes sociais.  Nunca tomamos o Congresso ou o Palácio do Planalto, em toda nossa história.  “Diretas já” e “caras pintadas” foram momentos de clara importância mas particulares e isolados, sem as consequências alongadas de um levante psíquico.

O Brasil portanto não contem (ainda), no seu rol de possibilidades imaginárias, a auto-consciência de que o poder repousa nas mãos de seus cidadãos.  E estes, quando se levantam, podem mudar seu rumo como nação.  O reconhecimento de seu poder como povo soberano, acima do poder de seus governantes, deve ser o mais importante legado deste levante se ele for duradouro.  

O segundo mais importante legado deve ser a infiltração do medo nas autoridades e instituições.  Não o terror, mas o medo.  É preciso que o governo e instituições associadas compreendam que nós não somos (mais) mansos e nosso senso de fraqueza e pequenez perante autoridades não mais existe.  Autoridades o são para nos servir.  E devem ter medo, sim, de nos servir mal, desde o atendimento em hospitais, delegacias e escolas públicas até o governante de plantão.  Medo de aumentar uma tarifa de ônibus sem consulta.  Medo é mais adequado que respeito, que suspeito seria pedir muito.  É saudável que cidadãos guardem um grau (limitado) de respeito pelas instituições de poder; uma sociedade não funciona sem elas.  Mas o nosso nível é além de respeito, mais parecido com reverência e prostração.

Aos críticos do movimento, a resposta é que estes protestos fazem parte de um processo longo, de um povo tentando no escuro conhecer seu ambiente e suas possibilidades, enquanto educa suas próprias instituições (polícia, sistemas de educação, saúde, governos e prefeituras, dentre outros) das suas expectativas e limitada tolerância para mal tratamento.  É preciso paciência.  Talvez você chegue em casa mais tarde do trabalho.  Muitos dos argumentos dos manifestantes são conflitantes ou mesmo não fazem sentido.  Faz parte do processo de maturidade política de um povo.  Do outro lado (que pode ser dentro de 10 ou 50 anos), emergirá um país melhor.  O que não é aceitável, até por não ser verdade, é a usual postura de “é assim mesmo” e ignorá-los como baderneiros.  Não é assim mesmo.  Poucos são baderneiros.  

Para ilustrar essa possibilidade, gostaria de tomar os próximos parágrafos para lembrar o mais famoso levante popular do século passado, iniciado de forma não tão diferente do nosso.  No dia 10 de maio de 1968 acontecia em Paris um protesto estudantil que eventualmente paralizaria o país e derrubaria o governo.  Deixou o legado no imaginário local de que o povo francês é capaz de diretamente influenciar o curso de eventos, de que o cidadão não é impotente perante a mística de poder do estado.  A transformação de sua auto-imagem já dura mais de 40 anos e ressoa na eternidade a cada mega-protesto (e são muitos) que a população francesa conduz.  

20 mil estudantes protestavam em Paris por motivos paroquiais inicialmente (a rigidez da administração antiquada da Sorbonne e Nanterre); cresceu para uma revolta de jovens impacientes contra poderosos e inflexíveis, trazendo consigo causas ligadas ao fim do comunismo, o fim do capitalismo, fim das guerras, combinado com uma generosa dose de hormônios.  O impulso juvenil contra tudo antiquado, rígido e autoritário ganhou contornos que surpreenderam até os protagonistas, expandindo-se para Berlim, Roma, e Nova Iorque, sempre tomando forma contra governos, fossem eles de esquerda ou de direita.  Não é muito diferente de um protesto inicial contra a elevação da tarifa de ônibus ou uma vaia de uma presidente num importante evento.

Na França de 1968 emergia a geração do pós-Guerra, com enorme expansão da educação universitária, para a qual o mundo era cheio de possibilidade, os meios de comunicação (TVs principalmente) se disseminavam com as primeiras transmissões ao vivo e permitiam a impressão de um presente compartilhado.  No Brasil, nos últimos 20 anos, vimos a emersão da primeira geração de grande volume de estudantes universitários.  No bojo desta geração nasce um novo idealismo brasileiro, dentro da nossa 2a classe média, aquela que é morena, estuda a noite, abre um pequeno negócio e é desprovida de QI (quem indique).  Ela sonha não só com os produtos dos comerciais de TV, mas também com uma vida repleta de conquistas melhor definidas das novelas e romances, como diria o Prof. Roberto Mangabeira Unger.  Naturalmente não recebe as benesses do governo (estas reservada para a antiga classe média) e o vê com desconfiança.  A polícia e as instituições nem sempre estiveram ou estão do seu lado.

Em Paris, não se sabia como terminariam os protestos.  A sequência de eventos viu as reações do governo se tornarem cada vez mais agressivas.  Em múltiplos casos a polícia agrediu manifestantes com violência desmedida, enchendo as ruas que cercam as universidades parisienses de gás lacrimogênio e sangue.  Os estudantes responderam com fogo, fumaça e barricadas, de forma desorganizada mas consciente.  A TV, ao vivo, transmitiu para toda a França as imagens, o que fez com que protestos eclodissem em universidade em todo o país.  Lembra algum lugar?  De São Paulo a Manaus em menos de um dia.

Os próximos passos na França viram a adesão da sociedade em geral aos protestos (centrais sindicais e sociedade civil organizada como um todo).  Slogans como “Seja realista: demande o impossível” e “A Revolução é inacreditável por ser real” alimentaram os espíritos da nação nas semanas seguintes, criando um senso de comunidade dentre os protestantes e ao redor das barricadas que já tomavam grande parte das cidades francesas.  Os movimentos sindicais se juntaram aos protestos e paralizaram indústrias e transportes na França, finalmente colocando o governo de joelhos.  O general De Gaulle, presidente àquela altura, fugiu do país para a Alemanha com receio dos manifestantes invadirem o palácio presidencial e no dia 30 de maio dissolveu o congresso e convocou eleições antecipadas para a formação de um novo governo.  Com estas concessões, o povo iniciou o processo de retorno à vida.  Entretanto, o poder do imaginário, uma vez libertado, não retorna ao mesmo formato anterior.  A compreensão da parte de um povo de sua capacidade de ditar seus rumos é um conceito simples mas revolucionário.  Conflita com o “é assim mesmo” tão comum em nosso país.  

Como será que este processo evoluirá no Brasil?  Depende, em grande, de quem se juntará aos protestos e quem teria rabo preso e ficará ao lado de instituições opressivas desenhadas em uma outra era para atender interesses que hoje já não são mais maioria.  A 2a classe média busca o seu lugar num país que não está pronto a recebê-la -- nem nas ruas (vide engarrafamentos), nem nas universidades, nem nas escolas, delegacias e hospitais, nem no convívio social.  A antiga classe média vê seu espaço reduzido no funcionalismo público e nas profissões liberais, em meio a médicos cubanos e o avanço da 2a.  Somos um povo sem rumo.  O governo, perdido neste contexto, abandona seu papel de criador de uma visão de futuro coerente para o país em busca de paliativos.  Dilma tem virtudes, mas não é inspiradora; serviu bem como ministra.  Certamente não mereceu aplausos.  Não fez o seu papel, de presidente, de engrandecer o espírito de um povo a ser melhor e a buscar a própria redenção, como tanto Lula quanto Fernando Henrique fizeram, de formas diferentes.  

Portanto vá às ruas ver os seus co-cidadãos acordarem para as possibilidades da democracia e do governo do povo.  Essas não são possibilidades novas, árabes recentemente viveram momento semelhante.  Eu irei, pacificamente, empunhando o celular para gravar tudo e transmitir a um mundo cujos olhos estão tornados ao Brasil.

E mesmo que você não vá à rua, maravilhe-se de estar vivo para ver um povo (o seu) que deitava em berço não-tão-esplêndido se levantar e abrir os olhos para um mundo novo, com contornos de possibilidade nunca dantes vistos na nossa nação.  Longa vida ao Brasil.
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