29 May 2012

Preocupa-te Amazonas! ou Um argumento sobre o triste destino reservado a sociedades industriais complacentes


Preocupa-te Amazonas!
ou Um argumento sobre o triste destino reservado a sociedades industriais complacentes
Denis Minev

Esta exposição tem o objetivo principal de alarmar.  O processo de mudança precisa ser iniciado com o reconhecimento de que é necessário mudar.  O Amazonas e sua querida Zona Franca ainda não atingiram tal grau de consciência; enquanto não o fizer, quaisquer processo de mudança que implique grande esforço ou sacrifício tende ao fracasso.  Em tal cenário, apenas melhorias pequenas e incrementais, também importantes porém insuficientes, tem chance de sucesso.  Nas próximas poucas páginas busca-se preocupar o leitor com as perspectivas da Zona Franca e da economia do Amazonas como um todo, criando assim as circunstâncias necessárias para a conscientização dos graves riscos que se corre, pressuposto na libertação de modelos mentais desatualizados e na busca de soluções para o futuro.

O argumento principal oferecido aqui é que cidades que basearam seu desenvolvimento econômico em grande parte em atividades industriais tiveram claros ciclos de pujança e decadência econômica.  Estes ciclos em geral coincidem com fases do desenvolvimento dos países nos quais tais cidades se inserem.  Toma-se como exemplo dois países, EUA e Inglaterra, protagonistas do segmento industrial até meados do século XX que tiveram suas economias transformadas, chegando ao século XXI com maior prosperidade mas com diferenças de desenvolvimento interno dramáticas e sempre desfavoráveis a cidades cujo cerne econômico se baseava primariamente na indústria. 

Na Inglaterra do século XIX e XX, cidades como Glasgow e Manchester despontavam na produção industrial.  A partir aproximadamente do fim da II Guerra Mundial, ambas passaram por um declínio que as levou a perder metade de suas populações em meio a permanentes níveis exorbitantes de desemprego.  Apenas com um grande volume de migraçao e, finalmente, com a reinvenção da vocação econômica de ambas (voltadas a serviços) no fim do século XX que estas cidades puderam ressurgir, ainda que sem a importância que tiveram no contexto geopolítico do século passado.  O processo foi claro; a partir do momento em que a sociedade inglesa se viu enriquecer e alcançar patamares mais altos de bem estar e renda, indústrias grandes geradoras de empregos e consequentemente buscadoras de mão-de-obra barata desapareceram.  Houve grande transferência de importância, por exemplo, de cidades indústriais para cidades concentradoras de serviços, como foi o caso com Londres, que ganhou grande volume de importância e permanece no século XXI importante centro mundial mesmo com uma indústria insignficante. 





Nos EUA do século XIX e XX, processo semelhante ocorreu em cidades como Baltimore, Cleveland, Pittsburgh e Detroit.  Estas cidades estiveram no centro do grande avanço norte-americano que em meados do século XX atingiram a posição de grande potência econômica mundial.  O processo que se seguir viu os EUA continuarem a avançar em busca de uma eocnomia mais próspera e, a despeito da atual recessão, atingirem no século XXI níveis de prosperidade e bem estar indiscutivelmente altíssimos quando comparados a outros países.  A partir de um certo ponto de prosperidade, entretanto, o país iniciou processo de desindustrialização.  Como um todo, o processo não foi danoso à economia norte-americana; outros segmentos ligados a serviços cresceram e impuseram níveis de crescimento e renda muito superiores ao que seria possivel com uma sociedade primariamente industrial.  Entretanto, para algumas cidades como as citadas acima, este processo se traduziu em verdadeira catástrofe de proporções grandiosas e duradouras.  Cleveland, Detroit, Pittsburgh, St. Louis, Buffalo perderam metade da população que tiveram durante o auge, enquanto que cidades como Baltimore e Filadélfia perderam 25% da população.  O declínio durou no mínimo cincoenta anos e causou, assim como na Inglaterra, altíssimos níveis de desemprego com somente se reduziu com a migração de parte da população para regiões mais prósperas. 



Nestes dois países, o avanço da renda per capita causou a debandada de grande parte das indústrias, especialmente aquelas com maior conteúdo de mão de obra e portanto maiores empregadoras.  Com a entrada da segunda década do século XXI, o Brasil se encontra em um momento de sua história muito semelhante; o volume de atividades indústriais responde por mais de 30% do PIB nacional mas já nota-se uma perda da relevância indústrial em favor do maior crescimento da área de serviços.  No caso do Amazonas, temos uma situação complicada; até 2008 a indústria respondia ainda por 49% do PIB estadual.  Manaus é uma cidade de destaque industrial na mesma proporção que as anteriormente mencionadas eram em seus respectivos países.  Nos EUA e Inglaterra, não houve nenhum caso (NENHUM) de cidade predominantemente industrial que tenha prosperado em meio à transformação econômica.  Será este o destino de Manaus?? 

Respondo com segurança que temos alternativas.  Lográ-las vai requerer um grande volume de esforço concentrado e escolhas duras.  Algumas direções que podem fortalecer nossas vantagens comparativas e estancar e reverter processos como os mencionados acima de inanição incluem:
  • A integração de produtos amazônicos na cadeia de produção indústrial da Zona Franca
  • A cadeia de energia (gás, petróleo e derivados)
  • Maior utilização de recursos naturais (produtos madeireiros, minérios, carbono, água, peixes, etc.)
  • Serviços (entreposto cultural, científico, político e logístico no centro/norte da América do Sul)
  • Turismo

Entretanto esta é uma conversa para outro dia.  Antes, é preciso que os amazonenses estejam verdadeiramente preocupados com o seu futuro.
Reação:

1 comment:

  1. Achei o texto muito interessante,somente faço uma crítica ao estilo da redação,longe mim apontar erros no texto do Dr. Denis Minev,mas há momentos que parece que faltou alguns conectivos,também aparece escrito "cincoenta",que em breve pesquisa(http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=30021) parece não ser a forma correta,há algum erro de digitação ou explicação para tal?
    Tirando estes detalhes o texto é um alerta ao nosso modelo ultrapassado de desenvolvimento econômico.

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