20 March 2011

O mundo árabe e a liberdade

Artigo no Jornal Amazonas Em Tempo este domingo.

Em meio a protestos e regimes em queda livre no Oriente Médio, uns ainda se perguntam se alguns povos, como árabes e africanos, não têm algum tipo de incompatibilidade com a democracia. Este argumento é alimentado por muitos no mundo ocidental e, obviamente, por todos os ditadores. Com revoluções em curso, não há momento mais adequado para este debate.

Sempre há riscos em transições de regimes. Basta olhar para a queda do Xá no Irã, dos Talibãs no Afeganistão, de Pol Pot no Camboja e do Marechal Tito na Iugoslávia; todas levaram a grandes derramamentos de sangue. Se o desenrolar dos atuais protestos e conflitos no Oriente Médio assim for, muitos cidadãos destes países sentirão saudades dos recém-depostos ditadores. Lu Hsun, escritor da revolução chinesa, descreve: “Eu antes era escravo do mestre, agora sou escravo dos ex-escravos”. Será este o destino do mundo árabe?

Argumento que não. Há diferenças profundas entre as revoluções do passado e as do presente. O movimento por liberdade de 2011 é marcado por dois fatores que o diferenciam: descentralização e coragem. Estas revoluções não são golpes de estado, planejados cuidadosamente por pequenos grupos. Os governos derrubados até aqui o foram pela resistência pacífica de um levante que, desarmado, impôs sua vontade. O poder emanou do povo no Egito e na Tunísia de 2011 tanto quanto nos Estados Unidos de 1776 e na França de 1789.

E como chamá-los de despreparados para a democracia quando dão a vida por ela? Vemos no noticiário diário as imagens e histórias da praça de Tahrir no Cairo ou da Pérola no Bahrein, onde a polícia metralhou manifestantes. No twitter @dminev estão publicados os vídeos das chacinas. É difícil conceber situação mais inspiradora e revoltante. Imagine-se (você) tomando a decisão de ir a um protesto na Praça da Polícia (apropriadamente nomeada), onde no dia anterior dezenas de manifestantes foram assassinados pelo governo. Este manifestante se ergue contra um sistema que é capaz de torturá-lo, violentá-lo e prendê-lo por décadas sem julgamento. Ele se levanta contra um governo apoiado pelas maiores potências mundiais, que cantam os benefícios da liberdade para todos menos ele. Você iria até a praça?

Haverá percalços pelo caminho. A França após a revolução de 1789 teve de arcar com Napoleão e os próprios Estados Unidos após a indepêndencia tiveram guerra civil. Apesar das dificuldades, a vida sob democracia é melhor. O estudos de Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, mostram que nunca houve uma grande fome no mundo sob regime democrático. Todos os exemplos de fomes devastadoras (Ucrânia, China, Etiópia, etc.) ocorreram sob ditaduras. Também nunca duas democracias entraram em guerra uma contra a outra. Nunca.

A visão de que alguns povos não têm valores democráticos é calcada em uma história de opressão (colonialismo, racismo, ditaduras). Argumentos da incongruência destes povos estão muitas vezes baseados no medo de uma radicalização religiosa. Esquecem que os radicais em geral florecem sob regimes autoritários e perdem a força sob a liberdade de expressão e representatividade democrática. No Egito e na Tunísia, os religiosos farão parte do jogo democrático, dentro de partidos políticos, como é o caso no Brasil. Os piores argumentos, entretanto, estão ligados à estabilidade do preço do petróleo -- a queda da ditadura na Arábia Saudita é sim desejável, a despeito da instabilidade que pode causar, pois o princípio da liberdade é superior ao da estabilidade.

É uma oportunidade histórica para o Brasil fornecer um degrau na escalada de um povo e de provar que solidariedade não é incompatível com o governo do povo, pelo povo e para o povo. O Brasil deveria apoiar os manifestantes explicitamente da Líbia ao Bahrein. Não o faz por polidez diplomática desatualizada. Ligue para seus representantes eleitos!
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