28 February 2011

Bom artigo recente de Moacyr Scliar - Reinventar-se

Reinventar-se
Falando do arquiteto Oscar Niemeyer, que quase aos 103 anos resolveu tornar-se compositor e escreveu um samba (verdade que não muito bom), disse um jornal que o grande brasileiro acabava de se reinventar. Reinventar-se: esta é uma palavra que, em 2010, ganhou em destaque em nosso vocabulário.
Explicável: nunca antes na história deste país tantas mudanças aconteceram, a começar pela emergência de uma classe média formada por pessoas que, confrontadas com novas situações, precisam, justamente, se reinventar. E o que significa isso?
Em primeiro lugar, é preciso dizer que há uma diferença entre inventar e descobrir. Descobrir é achar uma coisa que já estava ali, aparentemente coberta ou oculta. Colombo descobriu a América, mas a América existia, ainda que não com esse nome, era habitada por muitos povos – só que os europeus não sabiam disso, e glorificaram essa ignorância com a palavra descoberta que, não sem boas razões, tem sido contestada, como de resto a descoberta do Brasil.
Inventar é outra coisa. Inventar é criar algo que não existia, um dispositivo, uma máquina, uma substância química. Inventar exige conhecimento, exige criatividade, exige imaginação; escritores são, de certa forma, inventores; eles fazem surgir personagens e situações que não existiam.
A invenção pode ter contornos sombrios, como a guilhotina (bolada por um médico, o Dr. Guillotin) e as câmaras de gás dos campos de concentração. Mas em geral inventores são objeto de nossa admiração, e o Nobel é um testemunho disso.
Já reinventar é um termo que tem conotação irônica, debochada: quando dizemos que Fulano reinventou a roda estamos fazendo uma gozação. Mas a partícula apassivadora “se” dá ao verbo um outro, e revolucionário, sentido; o termo, por assim dizer, se reinventa.
Reinventar-se significa deixar para trás o nosso passado, significa transformar nossa vida (nem que seja em pequenos detalhes) e isso pode ser um antídoto decisivo contra o marasmo, contra o desânimo, contra a apatia. De repente, somos outra pessoa.
Um choque? É. Um choque. Mas um choque benéfico.
Reinventar-se: eis aí um bom lema para o ano que se aproxima. Reinventar-se como profissional, como cônjuge, como pai ou mãe ou filho ou filha, reinventar-se como amigo, reinventar-se como cidadão ou cidadã, reinventar-se como pessoa. Num mundo em que a invenção é um acontecimento contínuo, em que as mudanças se sucedem de maneira vertiginosa, mexer um pouco com nós mesmos pode ser algo muito bom, um grande começo de ano, um grande recomeço de vida.
Zero Hora (RS), 26/12/2010
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03 February 2011

Jim Collins: 10 passos para começar na próxima semana

Sucessor do guru Peter Drucker, Jim Collins não tem medo de colocar o dedo na cara dos empresários e dizer que são as empresas as causadoras de seu próprio declínio. Sem querer dar receita de bolo, ele estabelece 10 passos para gestores e companhias que estão dispostos a evitar esse fim. Confira:

1) Diagnostique a situação da empresa para saber onde pode melhorar
2) Pergunte a si mesmo: quantos cargos-chave estão nas mãos das pessoas certas?
3) Crie um conselho de administração pessoal, que ajude a entender o que está certo e errado
4) Duplique as perguntas e afirme menos, isso é sinal de liderança
5) Na próxima reunião, faça um inventário dos fatos “brutais” da empresa, os mais difíceis de se encarar
6) Descubra, perguntando a si e aos outros, qual é o seu motor e o da organização
7) Seja disciplinado e faça uma lista do que precisa parar de fazer
8) Desligue seus dispositivos eletrônicos por um dia, toda semana, para fazer uma reflexão disciplinada
9) Esclareça seus valores, questione suas práticas e repasse para os mais jovens
10) Estabeleça metas audaciosas e cabeludas para os próximos anos. Tenha sonhos.

Contribuição: Sandro Breval.
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01 February 2011

Ótimo artigo sobre Amazônia, FAS e alternativas na Folha de SP

31 de janeiro de 2011
FAS | Folha de S. Paulo | Ricardo Young | BR

Volta para o futuro
RICARDO YOUNG
Isolene abre sua sala, cuja janela dá para a imensidão do rio Negro. Traços marcantes, gestos decididos e rara beleza fazem dessa jovem mulher uma personagem que não passa despercebida na comunidade ribeirinha de Tumbiras. Filha mais nova do fundador dessa comunidade vocacionada para a construção de barcos, beneficiou-se da condição de mestre do pai e conseguiu ir a Manaus estudar.
Sua história poderia ser como a de milhares que saem do Brasil profundo buscando futuro melhor nos grandes centros. Isolene não. Ciente de que foi uma das poucas a ter tal oportunidade, resolveu voltar para que as gerações futuras de Tumbiras não fossem condenadas ao isolamento.
Na volta, junto com dona Raimunda, por décadas a única professora dali, resolveram lutar para fazer com que a escola pública de Tumbiras fosse uma escola de verdade.
O destino desta jovem idealista e desta senhora extraordinária cruzariam com um fato que começa a fazer diferença na Amazônia. Criada por iniciativa do governo do Amazonas e do Bradesco, a Fundação Amazonas Sustentável tem como objetivo promover o desenvolvimento sustentável, a conservação ambiental e a qualidade de vida das comunidades usuárias das unidades de conservação do Estado.
Em outras palavras, valorizar a floresta, remunerar as comunidades pelos serviços florestais e garantir saúde, educação, renda e integração para que a população possa se fixar nas comunidades. A meta é desenvolvê-las com as mais avançadas tecnologias de manejo florestal e oportunidades geradas pelo mecanismo do REDD+, adição de valor a produtos tradicionais da floresta.
Essa parceria pública/privada vem se constituindo em um possível modelo para desenvolvimento local sustentável, tornando a economia florestal algo viável e que beneficie, prioritariamente, aos que nela vivem e dela dependem.
A comunidade de Tumbiras decidiu que a prioridade dela seria a educação. Isolene, cosmopolita e articulada, e a professora Raimunda, de sabedoria curtida nos trópicos, encontraram na FAS a possibilidade de trazer para a floresta o que há de mais avançado em ensino a distância, tecnologia digital e ensino presencial.
Em salas de aula especialmente construídas, os alunos têm aulas pelo sistema de ensino a distância da Globo em parceria com a Secretaria de Educação do Amazonas.
Os conteúdos didáticos têm a mesma qualidade das melhores escolas de Manaus com interação via internet com professores on-line, acrescidos do ensino local em saberes como meio ambiente, recursos hídricos e biodiversidade. A contemporaneidade no Brasil profundo? É possível...
Isolene sorri um sorriso ensolarado de quem sabe que faz hoje pelo futuro de muitos o que um dia fizeram pelo dela.
RICARDO YOUNG escreve às segundas-feiras nesta coluna.
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