29 December 2009

Diferenças entre a administração pública e a administração privada.


Permita-me iniciar pela conclusão: as diferenças não são tão grandes quanto imaginado.  Administração se resume a pessoas e objetivos.  Treinar pessoas é bom, independente de privado ou público, alto ou baixo, gordo ou magro.  Recrutar os melhores profissionais dá resultado seja numa ONG, empresa ou governo.  Há muitas formas de motivar pessoas que são eficazes com funcionários públicos ou privados.  Metas servem para buscar resultados tanto de diretorias da SEPLAN quanto de lojas ou linhas de montagem.  Indicadores são úteis para acompanhar a produção de uma indústria, o volume de desmatamento ou a produção de uma secretaria.  Avaliação de desempenho separa o joio do trigo da mesma forma.  Fazer parte de algo maior que si próprio estimular a todos, às vezes até mais no lado público.  A vontade de ser melhor existe em todos nós, apenas adormecida com mais profundidade em alguns.  Valores como transparência, respeito, produtividade e bons serviços (os que adotou-se na SEPLAN) possibilitam a todos vislumbrar um caminho para a melhoria pessoal com consequências positivas para a organização.  Até mesmo a remuneração variável é possível nos dois, como mostra os exemplos das secretarias de educação e segurança pública.  

Surge portanto a pergunta óbvia: dada a evidência de que a produtividade do setor público é menor que do setor privado (todos reconhecemos), qual a explicação?  Proponho dois fatores: a ausência de seleção natural de administradores e o não-reconhecimento da profissão de administrador no setor público.

Na iniciativa privada, o mau administrador de uma loja ou restaurante pode rapidamente levar a loja à falência -- a carreira é curta para que não tem conhecimento, talento ou treinamento.  Os administradores que sobram passam por inúmeras provações ao longo de uma carreira antes de chegar a posição de alta liderança.  No setor público não é assim; maus gestores raramente são afastados, órgãos de baixa performance não são levados à falência (pelo contrário, órgãos com problemas normalmente crescem em busca de soluções).  A avaliação de performance é muitas vezes complicada por poucos dados ou apresentação de dados seletivamente.  A sociedade também em muitos casos não tem ferramentas de avaliação; enquanto que um restaurante com comida ruim fecha rápido, uma secretaria com maus serviços continua tendo sua folha paga pelo governo.  Sem a seleção natural, maus gestores com boas conexões tendem a se perpetuar; creio que reside aí a vantagem de se buscar um gestor com provada habilidade na iniciativa privada.

O segundo fator, o não-reconhecimento da administração como profissão, é mais sutil mas de grande importância também.  Administradores na maioria dos casos são selecionados baseado em dois critérios: político ou técnico.  Se acredita que um bom médico será um bom administrador de hospital, ou que um bom professor será um bom administrador de escola, ou que um bom policial será um bom gestor de delegacia, ou que um bom engenheiro será um bom gestor de obras, ou que um bom membro de partido político será um bom gestor de secretaria.  Há claras exceções, mas na maioria dos casos não é verdade.  

Considere que administração é um profissão, da mesma forma que engenharia ou medicina o são.  Há técnicas, há conhecimento acumulado.  Infelizmente nossa sociedade não reconhece este valor; pergunte a qualquer um, todos pensam que são bons administradores.  Não é o caso com outras profissões, onde sem treinamento ninguém se arrisca.  É claro que há pessoas de espetacular intuição que, sem estudo ou treinamento administrativo, são grandes administradores; estes são a excessão e não a regra.  Um bom médico, policial, professor ou engenheiro pode sim ser um bom administrador, mas com esforço de treinamento ou estudo, não apenas intuição.  Repito, administração é profissão.

Após seis anos na iniciativa privada, tive a oportunidade de servir na Secretaria de Planejamento do Amazonas nos últimos três anos.  Estou convencido que bons avanços ocorreram nos últimos anos na administração pública e que não estamos condenado a um futuro de maus serviços públicos.  Entretanto, há importantes decisões a serem tomadas como sociedade; o quanto mais se cobrar o tema gestão de nossos líderes, maior a chance de um futuro próspero.
Reação:

3 comentários:

Evandro Borges / Casa do Eletricista Ltda said...

Excelente post. Como administrador posso dar dois exemplos distintos; o 1º um hospital público e o 2º um hospital particular. No 1º os investimentos em infra-estrutura são bem maiores, no entanto, o modo de seleção profissional é resumidamente teórico através de concurso público, ou seja; o índice de produtividade é relativamente baixo devido à falta de metas e planos de carreira (no caso dos hospitais os planos de carreira são administrativos). No 2º exemplo temos um hospital particular, com recursos de planos de saúde e de atendimento particular. Neste caso exige-se uma maior qualificação profissional, melhor desempenho, alto índice de produtividade e procura maior que oferta de emprego, o que incentiva a alta produtividade do setor. Minha opinião.

Ferraz said...

As diferenças entre administração pública e privada são essencialmente contextuais, mas suficientemente significativas para se condicionarem as tipologias de instrumentos.

São muitas, e grandes, as diferenças contextuais, aqui ficam algumas (para quem quiser trocar ideias - ferrazd@gmail.com):


A.Pública:

Necessidades colectivas
Interesse público
Leis / Regulamentos,
Auto-tutela declarativa,
Privilégio de execução prévia
Impostos (OE)
Bem estar de uma sociedade
Inexistência ou imperfeições de mercado
Igualdade, equidade, justiça, proporcionalidade, universalidade, bem comum
Inexistente ou limitada

A. Privada:
Necessidades individuais
Interesse particular
Contratos entre particulares
Investimento privado
Lucro
Mercado
Restrição na prestação de serviços
Concorre com outros actores (Concorrência perfeita)

Elaine Garcia said...

Ótima síntese da diferença. Colaboradora das 2 realidades, concordo plenamente que as diferenças existem, mas são menores do que imaginei.
Como Administradora apaixonada pela profissão e pelas diversas ferramentas de Gestão, muito me frustra a banalização da profissão e de todas as técnicas e conhecimento acumulado que um bom administrador devidamente orientado a resultados precisa apresentar no desenvolvimento de suas atividades, seja ela na organização pública ou privada.
Administrar é tomar decisões,e tomar decisões necessita um processo de aprendizagem que tem necessariamente uma dupla entrada: a teoria e a prática. Se essas decisões, decorrentes da forma de administrar forem constantemente fracassadas nada melhor do que a Avaliação de Desempenho e Performance para mensurar a eficácia do recrutamento técnico versus indicação política.

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