16 December 2009

A Caminho de Copenhagen

A Caminho de Copenhagen
publicado no jornal Amazonas Em Tempo no dia 13 de dezembro de 2009

Cada povo seguiu seu próprio trajeto em direção a Copenhagen.  O Amazonas carrega consigo, além de reduções significativas de desmatamento, as cicatrizes de duas secas e uma cheia, catastróficas em breves quatro anos.  Como se não bastasse, temos os olhos ardidos pela recente névoa de fogo que pairou sobre Manaus, causada em grande parte pela estiagem que incomumente se estendeu até dezembro.  Também carregamos um grande volume de esperança, na forma do REDD (Reduções de Emissão de Desmatamento e Degradação), mecanismo que se incluso no novo acordo climático permitirá que florestas tropicais, como grandes armazéns de carbono, possam ser recompensadas por conservação.
O povo brasileiro como um todo vai a Copenhagen sob o peso das tragédias ocorridas em Santa Catarina, estado de meio ambiente tradicionalmente pacato, que tem sido atingido por desde tornados a chuvas torrenciais.  O Brasil também carrega esperanças que incluem, além do REDD, a grande oportunidade nacional ligada a biocombustíveis e hidreletricidade.  É neste contexto que a delegação brasileira de mais de 600 (em sua maior parte empresários) se dirige à Dinamarca.  
Não cabe aqui discutir o contexto da presença de todos os outros países, considerando suas cicatrizes e esperanças.  Entretanto, nada fala mais alto que ações; a julgar pela primeira semana de Copenhagen (conhecida como COP-15), identifica-se claramente um grande relutância por parte das nações mais desenvolvidas em reduzir suas emissões.  O grande desafio estabelecido é de conter o aquecimento global a um aumento de no máximo 2 graus C.  Este é o nível considerado ainda seguro para evitar as maiores catástrofes climáticas.  Para tanto, maior parte dos modelos climáticos indicam que emissões de carbono precisam cair de 20 a 30% até 2020 e mais de 80% até 2050.  Os prováveis efeitos globais mesmo deste aumento controlado de 2 graus são dramáticos - problemas de abastecimento de água para mais de 300 milhões de pessoas, principalmente na África; expansão de doenças como malária para áreas mais ao norte e ao sul, concentração de chuvas em breves períodos seguidos de secas mais extensas; desaparecimento de geleiras e gelo de montanhas que em muitos casos dão origem a rios, como o nosso rio Amazonas; savanização de florestas, com tremendas perdas de biodiversidade; dentre outros.  
E é com o intuito de evitar tais cenários que o Amazonas embarca.  Nossa agenda é extensa, inclui 5 eventos: apresenta-se as conquistas e projetos da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), em especial o projeto da Reserva do Juma e o programa Bolsa Floresta; a reunião dos nove governadores da Amazônia, assumindo o compromisso brasileiro de redução de desmatamento em 80%; a reunião com os governos da Califórnia, Illinois e Wisconsin, no comprometimento de tomar ações para evitar o aquecimento global a nível sub-nacional caso os países não cheguem a acordo; a apresentação das ações de redução de desmatamento e desenvolvimento ligadas ao programa Zona Franca Verde; e um evento conjunto da FAS e Moçambique demonstrando como a experiência de redução de desmatamento na Amazônia pode se aplicar a outros países pobres.  Além disso há um número de reuniões e apresentações em fóruns que vão desde senadores norte-americanos como John Kerry, a ganhadores do prêmio Nobel como Wangari Maathai, ao parlamento dinamarquês.  
O tempo é exíguo; a conferência de Copenhagen termina ao final da próxima semana e a ausência de acordo pode atrasar em um ano as ações necessárias.  Para quem não quer os olhos ardendo pela fumaça de queimadas pelo resto da vida, é hora de agir.  Escreva um e-mail aos seus líderes, perguntando o que eles estão fazendo a respeito; proteste na frente de embaixadas de países que não estão fazendo o suficiente; leia a respeito, informe-se; explique para seus filhos a importância de desligar a luz, de baixar o ar, de preservar a floresta, leve-o para conhecê-la.  Esta é uma verdadeira batalha que alinha toda a humanidade, uma que é causada por ela própria.  Neste contexto, não se preocupe apenas com deixar um mundo melhor para seus filhos, mas também em deixar filhos melhores para seu mundo.  Copenhagen não é um lugar, mas um destino.


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