01 November 2009

Mais Voos no Amazonas

Esta semana aprovou-se a concessão de incentivos para companhias aéreas no Amazonas que aumentem significativamente os serviços aéreos para o interior do estado.  É importante neste momento refletir a respeito das variáveis sociais e econômicas que ainda distanciam a economia moderna industrial de Manaus da economia rural do interior do estado.  

Uma pergunta simples: por que tão poucos profissionais escolhem viver no interior?  Será pela falta de oportunidades?  Argumento que há, dependendo da cidade, oportunidades que aparentam ser boas em áreas como saúde, educação, turismo, mineração, piscicultura, manejo florestal, mineração, energia, administração pública, dentre outras.  Entretanto, a densidade de profissionais de alta qualificação no interior é muito baixa dado o volume de oportunidades.  Tomemos o exemplo de médicos -- no interior as oportunidades de altos salários no início de carreira são mais acessíveis do que em Manaus, onde a competição obriga cada vez mais especialização.  Por que não temos mais médicos no interior?  Responder esta pergunta é abrir as portas ao desenvolvimento no interior.

A chave, acredito, reside em serviços.  Sem a prestação de serviços de qualidade, no mundo moderno, não se consegue atrair os melhores profissionais, a despeito de altos salários.  Tomemos o caso de telecomunicações; seja serviços de celular que hoje ainda não atingem 20 dos 62 municípios ou de internet que é ainda mais cara, inconstante e lenta que em Manaus ou serviços de TV a cabo com a vasta abundância de canais.  Modernos profissionais têm como exigência básica que os municípios onde residem tenham estes serviços disponíveis.  Há sem dúvida avanços, tanto na iniciativa privada com mais satélites e maior cobertura de celular (que incluirá todos os 62 municípios em Dezembro de 2010), quanto do setor público, com programas de telecentros, transmissão de aulas tanto do nível básico quanto universitário via IPTV a partir de Manaus e internet wi-fi pública; ainda assim, reconheça-se o longo caminho a ser percorrido pela frente.  O mesmo se aplica a segmentos como energia, comércio, saúde, educação, serviços públicos, dentre outros. 

No caso de transportes, a situação é também complexa.  Dadas nossas características, com poucas exceções as alternativas de transporte se limitam a fluvial e aérea.  Nos últimos anos tivemos uma série de dificuldades com empresas que operavam no estado, o que causou uma redução da malha de cobertura aérea no Amazonas, trazendo prejuízos significativos a municípios, tanto do ponto de vista econômico quanto social.  De acordo com os incentivos ora outorgados, há um compromisso de ampliação significativa dos destinos e frequências interligando interior nos próximos 3 anos.  Cidades como Tabatinga, Tefé, São Gabriel e Coari terão maior frequência de voos; cidades como Boca do Acre, Manicoré, Borba e Maués terão frequências estabelecidas em aviões de médio porte 40 a 70 passageiros.  Mais frequências também interligarão o Amazonas e Manaus a cidades de estados vizinhos, como Boa Vista, Cruzeiro do Sul e Rio Branco, fortalecendo ainda mais o hub de Manaus como distribuidor regional.  Adicionalmente, busca-se na proposta viabilizar voos interligando o Amazonas ao Peru, Guiana Francesa e Guiana.  Todas estas melhorias, é claro, são sujeitas a aprovação do estabelecimento de rotas pela ANAC, que regulamenta a aviação aérea.  A redução da ICMS sobre o combustível de aviação também possibilita a redução dos custos operacionais, o que acarretará melhores serviços e passagens mais baratas, uma demanda de longa data do interior.

Aqui entra sua parte.  Muitos amazonenses sonham com as praia de Fortaleza, Salinas ou Rio de Janeiro nas férias ou vão a São Paulo ou Miami para compras.  Reflita por um instante no quanto você conhece o seu estado.  Desde as belezas de cachoeiras e cultura indígena de São Gabriel, ao tucunaré de Barcelos, São Sebastião ou Nova Olinda, à tríplice fronteira de Tabatinga, à Mamirauá em Tefé, ao boi de Parintins, às praias e águas cristalinas de Maués, às inúmeras pousadas distribuídas pelo estado, o que você conhece?  Comenta-se muito do potencial turístico do Amazonas, mas se este reconhecimento não partir de nós mesmos, de onde então ele virá?  É um bom momento da pujança econômica de Manaus estender a mão ao nosso belo e preservado interior.


Reação:

2 comments:

  1. Nobre Secretário,
    até que se desenvolva todo um quadro favorável ao turismo no interior, teremos dificuldades de seguir sua sugestão. Por exemplo, os serviços prestados, ainda que amanhecêssemos com toda infraestrutura num belo dia, não corresponderiam. Internet, tv à cabo, celular, vão chegar sim, sem dúvida em condições razoáveis. Mas não imagino proporcional melhora na qualidade dos seviços. E turismo é, também serviço de qualidade. Veja Pres. Figueiredo. Aqui do lado, cem vezes melhor que Pirinópolis (GO). Mas, Pirinópolis atrai milhares de pessoas todos os finais de semana. Tem hotéis bons, restaurantes, pousadas, bares, artesanato organizado, garçons treinados, cozinheiros de primeiro mundo, adegas, lojas. Enfim, coisas que não vejo perspectiva de se desenvolverem no nosso interior em curto/médio espaço de tempo. De certa forma, são atrativos indispensáveis para turistas.
    Um abraço de seu leitor e admirador.

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  2. Prezado Jefferson,

    Reconheço que a prestação de serviços atual no interior ainda está longe do desejável. Apesar disso, há instalações simples já disponíveis em cidades como Pres. Figueiredo ou Parintins. Não se compara ao interior de São Paulo, dada a pujança econômica. Acredito neste crescimento a cada vez que vejo o congestionamento na Torquato de pessoas voltando de municípios vizinhos do fim de semana. O manauara já tem este costume de partir para a vizinhança, e com o crescimento que temos é uma questão de tempo até os empreendimentos surgirem. Abraços e obrigado pelo comentário.
    Denis

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