23 August 2009

Brasil, Amazonas e Liderança Ambiental

Esta semana foram abertos arquivos do presidente Nixon, dos EUA de 1971.  Para surpresa geral (de quase ninguém), surgem claras evidências de cooperação entre o Brasil e EUA no que diz respeito ao golpe que derrubou Salvador Allende no Chile e elevou a ditador Augusto Pinochet.  Este evento foi noticiado em muitos jornais, porém com destaque comparável a um acidente sem vítimas na Cidade Nova.  

Gostaria de sugerir uma importante conclusão a ser tirada deste evento: o quanto o Brasil evoluiu nos últimos 40 anos.  De cupincha dos EUA para fazer seu trabalho sujo na América do Sul, passamos a um importante parceiro e líder internacional em uma ampla gama de temas.  Nos anos 70 o grande tema global era a guerra fria; naquela altura, o Brasil tinha uma posição subserviente no cenário global e a desempenhou com competência (como um peão no tabuleiro), inclusive se sujeitando a um golpe militar.  Quase quarenta anos depois, o mundo bipolar de EUA e URSS se definhou em um mundo multi-polar.  Neste mundo, para o bem ou para o mal, as posições brasileiras são relevantes e influentes.  O Brasil ainda aprende a utilizar este poder; com o tempo saberemos se fomos jovem traficante com arma carregada ou cirurgião iniciante com bisturí e gaze.

E eis que surge a oportunidade de protagonismo, em Dezembro 2009 na longínqua Dinamarca.  Lá ocorrerá reunião com o potencial (até agora potencial apenas) de acordo global para suceder o acordo de Kyoto em 1997 (acordo importante e inovador, mas tímido dado o conhecimento científico adquirido nos últimos anos a respeito das mudanças climáticas.  Como mencionei em meu último artigo, o Brasil tem motivos de se orgulhar de seu histórico ambiental, principalmente em três frentes: biocombustíveis, energia hidrelétrica e preservação da Amazônia.  Desenvolvemos o etanol como combustível antes do mundo, temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e ao longo de 500 anos de ocupação (ocidental) não desmatamos mais que 17% da Amazônia.  A união nacional aponta da direção de uma coalizão entre indústria (consumidora de energia hidrelétrica limpa), agronegócio (produtor de biocombustíveis) e Amazônidas (em busca de remuneração por preservação ambiental) para determinar a posição óbvia nacional.  

O que pode parecer óbvio, na política externa nacional, não o é.  O alinhamento nacional com outros países em desenvolvimento tem levado o Brasil a defender posição semelhantes a Índia e China, países de características energéticas e preservacionistas que podem ser descritas delicadamente de diferentes das nossas.  A posição destes países é clara: eles não querem entraves de ordem ambiental ao seu desenvolvimento e responsabilizam os países desenvolvidos pela atual situação de aquecimento global.  O Brasil não só os apóia mas também os lidera, tornando o acordo na Dinamarca mais improvável ou, se possível, mais fraco.  Tudo em nome de um elusivo cargo de liderança de países emergentes, contra nossos interesses -- ou um prematuro alinhamento de subserviência à potência do século XXI, China, estabelecendo assim uma nova tradição. 

Nesta frente, os nove governadores da Amazônia se juntam em busca de uma modificação de posição nacional nas negociações internacionais, especialmente no que diz respeito à remuneração por preservação de florestas.  Temos um histórico de preservação ambiental invejável, um importante ativo num futuro que se desenha ameaçador e desafiante.  O Amazonas em particular tem buscado parcerias que vão desde príncipes (Charles e Albert) a estrelas de cinema (Schwarzenegger e Bianca Jagger) e líderes políticos e ambientais (sempre menos conhecidos).  Em outubro teremos um passo importante no acordo com o estado da Califórnia; é um passo em um longo processo que pode permitir ao Amazonas, a partir de 2013, ser remunerado por preservação apenas pela Califórnia.  Busca-se mostrar um caminho.

No agronegócio, exemplos de sucesso abundam.  Continuamos a evoluir em nossa matriz energética, agora com a iminente mudança pelo gás natural em Manaus.  Resta ao Brasil olhar a si próprio não com menosprezo ou complexo de inferioridade, mas com orgulho e maturidade.  O respeito do mundo seguirá.



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1 comment:

  1. Concordo plenamente com as colocações feitas nesse artigo, tanto no que se refere ao golpe que derrubou Allende como no que se refere a questão ambiental e nesse aspecto em particular vou mais longe estamos preservando a Amazônia com soluções economicas internas (regionais), lutando contra alguns setores governamentais compostos por ambientalista de "ipanema" que n~ao teem preocupação com a qualidade de vida do ser humano.

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