14 March 2009

O Sudão, a Amazônia e Você

Esta semana o Tribunal Penal Internacional emitiu ordem de prisão ao presidente do Sudão, Al Beshir.  O motivo é simples e claro: ele foi um dos principais responsáveis por 400 mil mortos e quase 3 milhões de refugiados (praticamente um Amazonas) em um conflito ocorrido no sul do Sudão, em Darfur.  Note-se que não se discute se houve ou não genocídio -- está claro que sim.  Também não se discute o envolvimento do dito presidente -- isto também é claro.  Entretanto, há sim uma forte discussão, da qual o Brasil faz parte, se a ordem de prisão deveria ou não ser emitida.  

Há uma linha clara no mundo: a vasta maioria de países democratas que respeitam direitos humanos se posiciona a favor da prisão; do outro lado, com raras exceções, temos ditaduras principalmente africanas, muitas delas com medo de, sendo estabelecido este precedente, serem as próximas a terem seus líderes aprisionados.  E aqui entra a posição brasileira -- o Brasil se opõe a prender o líder sudanês.  E por que?  Porque o Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) tem como meta entrar como membro permanente para o Conselho de Segurança da ONU (hoje composto apenas por Inglaterra, EUA, França, China e Rússia) e quer o apoio destes mesmo ditadores para chegar lá.  É um caso clássico de tentar fazer o fim justificar os meios.  Mas acredito que há mais por detrás desta decisão; há uma outra tradição no Brasil, infeliz e imoral, de não botar autoridades detrás de grades.  Vide mensalões e castelos.  É triste ver este costume se infiltrar no Itamaraty, órgão que abarca a elite de nosso serviço público, e ser refletido também em nossa política externa.  

O argumento de que protegemos mais os sudaneses sem incomodar seu líder também é falho.  Após a ordem de prisão, o presidente do Sudão ordenou a expulsão de ONGs humanitárias do seu país, pondo em risco a segurança alimentar de mais de um milhão de pessoas.  Críticos não devem culpar a ONU por tal situação, mas sim a clara irresponsabilidade de um líder que claramente viola toda e quaisquer direito humano para se manter no poder.  Apaziguar tal líder é apenas empurrar com a barriga um problema, pois não há em tais circunstâncias oportunidade de negociação -- assim como não houve na Alemanha nazista, Rwanda ou Bósnia.

Ouso dizer que esta não é a moralidade do brasileiro.  A imagem do brasileiro no exterior é a melhor possível; somos bem recebidos em todos os rincões do mundo.  Devemos sim utilizar esta imagem positiva para influenciar positivamente o mundo.  O Brasil ganha importância no mundo, tanto politicamente quanto economicamente; e com este poder adicional, crescem nossas responsabilidades.  E a responsabilidade número um é evitar a reincidência do genocídio no mundo.  Caso contrário, se nos apresentarmos ao mundo como líderes de ética duvidosa, então que o mundo ao menos seja responsável de não nos conceder esta liderança.  Mas insisto que a despeito de Renans e Delúbios que assolam nosso país, somos um povo que quer justiça e respeito aos direito humanos.  Nosso povo vê a defesa de vítimas e a punição de atrocidades como imperativos morais.  Nossa política externa precisa refletir quem somos.  Não temos como resolver os problemas do mundo, mas ao menos devemos nos posicionar do lado correto da história.

E você por fim se pergunta por que você deve se importar com o Sudão.  Primeiro, lembre-se de onde você mora -- o Amazonas já foi sim palco de massacres de proporções semelhantes. Apesar da maior população indígena do Brasil, a escravidão e assassinato de indígenas ocorrido em nosso território.  Estimativas de antropólogos e arqueólogos põem em cerca de 20 a 30 milhões as populações nativas amazônicas -- hoje em nosso estado não são mais de 100 mil.  Se não bastasse, uma leitura da tetralogia de Márcio Souza a respeito da cabanagem deixa claro que 40% da população masculina da Amazônia foi morta nos idos de 1840.

O Itamaraty não reflete os valores morais de nosso país (talvez apenas os do Governo Federal).  Então protestemos!  Como eles ainda não chegaram na idade do e-mail, precisamos ligar ou mandar carta, vide endereços no link http://www.mre.gov.br/lista_ramais_mre.pdf

Nós amazônidas somos internacionalistas; reduzimos o desmatamento a nosso custo quando os maiores beneficiários são o resto do mundo.  Seria triste que nosso histórico de buscar o melhor para o mundo seja obliterado pela sede de meia dúzia de burocratas em Brasília que sonham com um trono para si.  Mal sabem que no caminho que seguem, se e quando chegarmos lá, este trono terá virado vaso sanitário.
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