23 April 2017

Boas-Vindas aos Refugiados Venezuelanos

Denis Minev - publicado no jornal A Crítica no dia 21 de abril de 2017

A Venezuela vive momento triste de sua história.  O jornal A Crítica tem continuamente noticiado a presença de pobres, em geral indígenas venezuelanos, nas ruas de Manaus.  A escassez de todo tipo de produto, especialmente alimentício e farmacológico, tem forçado nossos vizinhos a graus cada vez mais dramáticos de violência e desespero.  No último ano, mais de 150 mil venezuelanos deixaram seu país.  

O acesso a alimentos, remédios e empregos secou em meio a um colapso econômico.  Imigrantes venezuelanos buscam refúgio por todos os lados do país; o Caribe hoje conta com um volume constante de embarcações precárias tentando aportar nas ilhas caribenhas mais prósperas.  Essa é uma cena que lembra haitianos ou africanos, não venezuelanos ricos em petróleo.  No Brasil, Roraima tem recebido contingentes cada vez maiores de imigrantes em busca de qualquer tipo de emprego, comida e atenção médica.  

Neste contexto, o Brasil tem uma escolha a fazer.  Podemos, como muitos fazem, fortalecer nossa fronteira com mais militares e polícia federal.  Inspirados por um ser alaranjado, poderíamos até mesmo construir um muro.  Num momento de crise acentuada como a que vivemos hoje, seria fácil deixar de lado “problemas dos outros” quando temos tantos nossos próprios.  

Entretanto, essa não seria a escolha moral certa.  O Brasil é ainda um país de imigrantes.  Se você procurar nas suas raízes, ainda há de encontrar imigrantes que, indesejados ou perseguidos onde viviam, aqui encontraram refúgio e uma nação acolhedora.  A despeito de termos nos fechado a imigração em massa desde os anos 50, a nação retém o espírito imigrante.  Também somos em geral inspirados pela moralidade legada nos testamentos divinos; a grande maioria de nossa população tem na fé judeo-cristã sua base.  É indiscutível que essa moralidade comanda recebermos nossos vizinhos no seu momento de dor e tristeza.

Adicionando um aspecto pragmático, Amazonas e Venezuela hoje pouco se conectam, afora das ocasionais visitas de férias a Margarita.  Com Venezuelanos aqui, vislumbra-se por exemplo maior comércio entre as nações, que certamente é uma importante fonte de enriquecimento mútuo.  Novas oportunidades de empreendedorismo surgiriam, possivelmente ligando o PIM à Venezuela.  
Tente vislumbrar como seria nossa sociedade se não tivéssemos acolhido os japoneses há um século.  Ou os sírio-libaneses.  Ou os judeus.  Ou mesmo a grande imigração de portugueses.  Ou a recente imigração de haitianos, na sua maioria trabalhadores honrados e contribuintes à diversidade cultural e linguística de nossa sociedade.  No futuro, olharemos para o legado dos venezuelanos que aqui chegam da mesma forma, com orgulho.

Já há esforços nesta direção.  Tanto estado quanto prefeitura trabalham nesta direção, mas ainda de forma bastante limitada.  Gostaria de conclamar você, meu concidadão, a apoiar estas iniciativas.  Avise seu deputado, seu vereador, que você os apoia.  Não são grandes investimentos e certamente enriqueceremos como sociedade por isso.  


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29 February 2016

TED Talk: Empreendedorismo e Conservação na Amazônia do século XXI

A Amazônia precisa de um solavanco de empreendedorismo no século XXI para atingir um grau de prosperidade elevado.  No século XX, tivemos algo assim em Rondônia.  Na TED Talk abaixo, algumas sugestões de como replicá-la com os devidos limites da conservação ambiental.


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14 April 2015

Artigo publicado no jornal A Crítica de hoje, em apoio ao acordo selado pelo Amazonas no CONFAZ

Cavalo selado vindo para a Zona Franca de Manaus

Denis Minev

O tema da reforma tributária é antigo e complexo.  A maior parte dos amazonenses, mesmo economistas, não tem tempo de se debruçar sobre as cada vez mais complexas discussões que acercam o tema.  Reduz-se assim um dos maiores riscos ao nosso futuro a slogans e política. 

Gostaria de tomar cinco minutos seus para discutir uma pequena reforma sendo discutida no CONFAZ (conselho de secretários de fazenda do Brasil).  O CONFAZ é um órgão em que as decisões são tomadas por unanimidade; as 27 unidades da federação brasileira precisam concordar, sem nenhuma divergência, para que suas decisões sejam eficazes.
Imagine a frequência com que 27 pessoas de uma mesma família, que se amam, concordam em alguma coisa; imagine a sua família.  Imagine ainda que o tema é controverso e de grande importância para cada um. 

Pois é neste momento que nos encontramos e, surpreendentemente, há consenso das 27 unidades da federação.  Essa mini-reforma busca um item principal que é justo: cobrar mais ICMS no estado onde ocorre o consumo e menos no estado produtor.  Se um consumidor do Piauí comprar uma geladeira de São Paulo, o estado do Piauí deve ficar com a grande maioria da arrecadação do ICMS.  Se não for assim, os estados mais pobres (que produzem menos) acabam transferindo recursos para os mais ricos, o que não faz nenhum sentido.  Essa reforma é justa e boa.

Onde o tema se complica é na preservação da competitividade industrial.  Pela lei, apenas o Amazonas pode conceder incentivos sobre o ICMS; na prática, todos concedem incentivos sem que o Supremo Tribunal Federal interfira.  Assim, o que deveria ser uma vantagem competitiva de até 12% (essa é a alíquota interestadual sobre a qual podemos dar incentivos), na prática, é zero, pois outros estados concedem entre 7 e 12% também. 
A proposta atual perante o CONFAZ é de dar a exclusividade ao Amazonas de poder conceder 10% de incentivos (exceto em bens de informática, onde seria 7%) enquanto que aos outros estados o máximo seria 4%.  A competição entre estados para conceder incentivos seria reduzida, a arrecadação dos estados mais pobres aumentaria e a competitividade industrial da Zona Franca seria preservada e em alguns casos ampliada.

É raríssimo, nas discussões a respeito de reforma tributária, que o Amazonas seja tão claramente tratado como exceção.  Em alguns segmentos econômicos, o Amazonas chega a ganhar competitividade adicional versus os demais estados (especialmente em motos e eletro-eletrônicos, nossos polos mais importantes).  Mérito dos negociadores.  Parabéns e obrigado. 

Em outros, como bens de informática, pode parecer que perdemos competitividade; isso seria verdade se os outros estados estivessem respeitando as leis de incentivo.  Esse não é o caso; na teoria ganhamos 3% versus nordeste e perdemos 2% versus sudeste; na prática (que é o que vale), ganhamos versus nordeste e empatamos com o sudeste.
Nesta discussão, o Amazonas tem se destacado pelo profissionalismo com que trata a questão Zona Franca.  Sucessivos governos e bancadas federais amazonenses, de todos os partidos, tem defendido com competência nosso polo industrial.  Não é a toa que temos, a despeito de enormes dificuldades logísticas, burocráticas e ambientais, algumas das mais pujantes empresas atuantes no Brasil.

É também indiscutível o grau de competência acumulado por nossos técnicos, seja na SEFAZ, SEPLAN ou SUFRAMA, que suspeito compreendem o tema com maior profundidade do que de estados muito maiores como mesmo São Paulo e outros.
Entretanto, há no momento muito ruído na comunicação local a respeito desta proposta.  Alguns gostariam de se ater à letra da lei de 1967; no que diz respeito ao ICMS, ela certamente foi desrespeitada por todos os demais estados e funciona apenas na teoria.  Em casos assim, em que 26 estados estão errados e um está certo, mesmo que ganhemos no judiciário, perderemos o equilíbrio político. 


O professor Samuel Benchimol já dizia que o desenvolvimento sustentável na Amazônia se basearia em quatro pilares: viabilidade econômica, adequação ambiental, justiça social e equilíbrio político.  A Zona Franca se baseia, em última instância, num consenso político de que Manaus vale a pena para o Brasil.  O Brasil entendeu isso em 1967 e entende isso agora.  Sigamos em frente.
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18 July 2014

A Microsoft/Nokia vai demitir 18 mil no mundo. O que acontecerá em Manaus?

A Microsoft vai demitir 18 mil no mundo, sendo que 12,5 mil são da recém comprada Nokia. Dada a importância da Nokia em Manaus, fui verificar o anúncio da Microsoft, que está na carta de Stephen Elop (presidente da área de celulares da Microsoft) anexa. Diga-se de passagem, uma carta muito mal escrita.
Ele menciona uma série de fábricas no mundo que eles pretendem fechar, inclusive em Oulu (Finlândia) e Komaron (Hungria), fábricas que vão reduzir operações (Beijing e Dongguan na China), centros de pesquisa que serão diminuídos (San Diego, EUA e Beijing, China). Dentre estes muitos cortes, ele menciona Manaus como um lugar para onde eles pretendem "transferir mais manufatura da Microsoft".
Aparentemente, uma boa notícia, ao menos no curto prazo, para o ecossistema Nokia em Manaus, para a saúde do PIM e para o Amazonas.
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27 November 2013

Comentários de Jacques Marcovitch sobre o livro "Onde estão as flores?" de Ilko Minev

Uma lição de esperança
Jacques Marcovitch



A partir dos clássicos inesquecíveis de Primo Levi ganharam destaque, em todo o mundo, a memorialística e a ficção de autores judeus inspiradas nos acontecimentos dos anos 1930 e 1940.

Guiadas pelo mesmo fio condutor da verdade, muitas obras pós‐Levi conquistaram grande acolhida por leitores das mais diversas nacionalidades. Aqui no Brasil, como sabemos, vieram à luz trabalhos de grande valor em torno do tema. Um deles, mais recentemente, foi o romance de Ilko Minev. As páginas de “Onde estão as flores” inscrevem-se entre as mais pulsantes e motivadoras de reflexão.

Transformar desventuras em patrimônio de uma vida significativa é a lição que Licco Hazan, personagem da trama em análise, transmite aos acompanhantes de sua trajetória.

Nascido em Sofia, Hazan vive sua adolescência no período que Timothy Snyder aponta como a mais terrível calamidade moral e demográfica na história moderna. Uma catástrofe marcada por assassinatos em massa pelos regimes nazista e soviético nos períodos em que ganharam ímpeto.

Imigrante judeu búlgaro, Licco conta como sobreviveu aos seus poderosos carrascos para se tornar décadas depois, o pioneiro capaz de erigir um legado que transcende sua existência.

Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove anos idade, ele é conduzido, ainda jovem, aos campos de trabalhos forçados, onde aprende a lidar com os infortúnios para sobreviver.

De Sofia a Istambul, obtém um visto de entrada para o Brasil e segue pelo estreito de Gibraltar para o Porto de Santos. Ali não chegam, nem ele, nem sua amada Berta. Transportados por um navio à deriva, são forçados a desembarcar em Belém do Pará.

Ele mecânico, ela contadora, estabelecem‐se para conquistar novos horizontes, amparados por seus valores e pela disposição de trabalhar. Valores forjados no convívio com os descendentes da comunidade de judeus marroquinos que emigraram para Amazônia.

Iniciava-se, então, uma nova fase institucional no Brasil com a sua independência em 1822. A Constituição Federal de 1824 já assegurava a liberdade religiosa e valorizava o mérito, como descreve Maria Luiza Tucci Carneiro em sua obra “Brasil Judaico: Mosaico de Nacionalidades” (Editora Maayanot, 2013).

A rica narrativa da travessia do Atlântico lembra os figurantes da tela “Navio de Emigrantes”, de Lasar Segall, que retrata, nesta grandiosa alegoria da emigração, diferentes tipos humanos em viagem para o Novo Mundo.

Eram ocupantes do mesmo barco cuja diversidade de origens produziam o ruidoso cruzamento. Notado por Licco Hazan, “dos idiomas iídiche, alemão, russo, árabe, grego holandês, francês, tcheco, búlgaro, sérvio, espanhol, húngaro, português, inglês e línguas escandinavas”.

Esperançosos, apesar da fragilidade de seus destinos, tornaram-se perseverantes e realizaram seus sonhos.

Passaram a ser fontes de aprendizagem e inspiração, conquistando uma segunda vida na mente dos seus descendentes.

Em poucos anos estudaram e conheceram as possibilidades do novo mundo que passaram a habitar. Fizeram-se importantes exportadores do óleo de pau-rosa, fixador utilizado na indústria de cosméticos, e do bálsamo de copaíba com suas propriedades anti‐inflamatórias e das sementes de cumaru apreciadas pelo seu aroma.

Enfrentam, na Amazônia, a barreira de outros hábitos e idioma, costumes e regras sociais. Com isso, desenvolvem o respeito pelo outro, alcançam resultados inconcebíveis nas suas caminhadas e desenvolvem uma capacidade incomum de resiliência.

Sua experiência leva-os a formular a síntese da boa gestão com palavras singelas e exatas: “Uma boa administração tem muito a ver com bom senso, honestidade e simplicidade”. Ou “quando se acerta no alvo em algum negócio ou produto, os lucros vêm rápido. Da mesma forma os erros geram prejuízos implacáveis, então é preciso estancar o sangramento, não se pode ter pena. Tem que cortar na carne, engolir o prejuízo e seguir em frente”.

A crença dos personagens no Brasil é inabalável. Afirmam que o remédio para os males nacionais estão em três prioridades: simplificação tributária, reforma política para melhorar a governança pública e desburocratização da legislação ambiental.

Expostos desde jovens a adversidades e choques culturais, sua infância e adolescência foram marcadas por momentos de tensões e penúria na vida pessoal que os levaram a tentar obstinadamente, com êxito, uma vida de superação.

Em vez de se conformar às aparentes impossibilidades, aprenderam a localizar a saída no labirinto da vida. Confirmaram, com seus movimentos, que apesar de todos os infortúnios é possível construir uma vida significativa e contribuir para um mundo melhor.

O romance “Onde estão as flores”, de Ilko Minev, é obra de consulta indispensável para estudiosos dos fluxos migratórios que chegaram ao Brasil e contribuíram para o desenvolvimento de uma nova pátria. Leitura recomendável para educadores e jovens empenhados na construção de seus projetos de vida.

Livro: Onde estão as flores? Autor : Ilko Minev
Editora Virgilae, 2014

Lancamento 02.12.13 na Livraria da Vila Shopping Higienopolis, São Paulo
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