18 July 2014

A Microsoft/Nokia vai demitir 18 mil no mundo. O que acontecerá em Manaus?

A Microsoft vai demitir 18 mil no mundo, sendo que 12,5 mil são da recém comprada Nokia. Dada a importância da Nokia em Manaus, fui verificar o anúncio da Microsoft, que está na carta de Stephen Elop (presidente da área de celulares da Microsoft) anexa. Diga-se de passagem, uma carta muito mal escrita.
Ele menciona uma série de fábricas no mundo que eles pretendem fechar, inclusive em Oulu (Finlândia) e Komaron (Hungria), fábricas que vão reduzir operações (Beijing e Dongguan na China), centros de pesquisa que serão diminuídos (San Diego, EUA e Beijing, China). Dentre estes muitos cortes, ele menciona Manaus como um lugar para onde eles pretendem "transferir mais manufatura da Microsoft".
Aparentemente, uma boa notícia, ao menos no curto prazo, para o ecossistema Nokia em Manaus, para a saúde do PIM e para o Amazonas.
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27 November 2013

Comentários de Jacques Marcovitch sobre o livro "Onde estão as flores?" de Ilko Minev

Uma lição de esperança
Jacques Marcovitch



A partir dos clássicos inesquecíveis de Primo Levi ganharam destaque, em todo o mundo, a memorialística e a ficção de autores judeus inspiradas nos acontecimentos dos anos 1930 e 1940.

Guiadas pelo mesmo fio condutor da verdade, muitas obras pós‐Levi conquistaram grande acolhida por leitores das mais diversas nacionalidades. Aqui no Brasil, como sabemos, vieram à luz trabalhos de grande valor em torno do tema. Um deles, mais recentemente, foi o romance de Ilko Minev. As páginas de “Onde estão as flores” inscrevem-se entre as mais pulsantes e motivadoras de reflexão.

Transformar desventuras em patrimônio de uma vida significativa é a lição que Licco Hazan, personagem da trama em análise, transmite aos acompanhantes de sua trajetória.

Nascido em Sofia, Hazan vive sua adolescência no período que Timothy Snyder aponta como a mais terrível calamidade moral e demográfica na história moderna. Uma catástrofe marcada por assassinatos em massa pelos regimes nazista e soviético nos períodos em que ganharam ímpeto.

Imigrante judeu búlgaro, Licco conta como sobreviveu aos seus poderosos carrascos para se tornar décadas depois, o pioneiro capaz de erigir um legado que transcende sua existência.

Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove anos idade, ele é conduzido, ainda jovem, aos campos de trabalhos forçados, onde aprende a lidar com os infortúnios para sobreviver.

De Sofia a Istambul, obtém um visto de entrada para o Brasil e segue pelo estreito de Gibraltar para o Porto de Santos. Ali não chegam, nem ele, nem sua amada Berta. Transportados por um navio à deriva, são forçados a desembarcar em Belém do Pará.

Ele mecânico, ela contadora, estabelecem‐se para conquistar novos horizontes, amparados por seus valores e pela disposição de trabalhar. Valores forjados no convívio com os descendentes da comunidade de judeus marroquinos que emigraram para Amazônia.

Iniciava-se, então, uma nova fase institucional no Brasil com a sua independência em 1822. A Constituição Federal de 1824 já assegurava a liberdade religiosa e valorizava o mérito, como descreve Maria Luiza Tucci Carneiro em sua obra “Brasil Judaico: Mosaico de Nacionalidades” (Editora Maayanot, 2013).

A rica narrativa da travessia do Atlântico lembra os figurantes da tela “Navio de Emigrantes”, de Lasar Segall, que retrata, nesta grandiosa alegoria da emigração, diferentes tipos humanos em viagem para o Novo Mundo.

Eram ocupantes do mesmo barco cuja diversidade de origens produziam o ruidoso cruzamento. Notado por Licco Hazan, “dos idiomas iídiche, alemão, russo, árabe, grego holandês, francês, tcheco, búlgaro, sérvio, espanhol, húngaro, português, inglês e línguas escandinavas”.

Esperançosos, apesar da fragilidade de seus destinos, tornaram-se perseverantes e realizaram seus sonhos.

Passaram a ser fontes de aprendizagem e inspiração, conquistando uma segunda vida na mente dos seus descendentes.

Em poucos anos estudaram e conheceram as possibilidades do novo mundo que passaram a habitar. Fizeram-se importantes exportadores do óleo de pau-rosa, fixador utilizado na indústria de cosméticos, e do bálsamo de copaíba com suas propriedades anti‐inflamatórias e das sementes de cumaru apreciadas pelo seu aroma.

Enfrentam, na Amazônia, a barreira de outros hábitos e idioma, costumes e regras sociais. Com isso, desenvolvem o respeito pelo outro, alcançam resultados inconcebíveis nas suas caminhadas e desenvolvem uma capacidade incomum de resiliência.

Sua experiência leva-os a formular a síntese da boa gestão com palavras singelas e exatas: “Uma boa administração tem muito a ver com bom senso, honestidade e simplicidade”. Ou “quando se acerta no alvo em algum negócio ou produto, os lucros vêm rápido. Da mesma forma os erros geram prejuízos implacáveis, então é preciso estancar o sangramento, não se pode ter pena. Tem que cortar na carne, engolir o prejuízo e seguir em frente”.

A crença dos personagens no Brasil é inabalável. Afirmam que o remédio para os males nacionais estão em três prioridades: simplificação tributária, reforma política para melhorar a governança pública e desburocratização da legislação ambiental.

Expostos desde jovens a adversidades e choques culturais, sua infância e adolescência foram marcadas por momentos de tensões e penúria na vida pessoal que os levaram a tentar obstinadamente, com êxito, uma vida de superação.

Em vez de se conformar às aparentes impossibilidades, aprenderam a localizar a saída no labirinto da vida. Confirmaram, com seus movimentos, que apesar de todos os infortúnios é possível construir uma vida significativa e contribuir para um mundo melhor.

O romance “Onde estão as flores”, de Ilko Minev, é obra de consulta indispensável para estudiosos dos fluxos migratórios que chegaram ao Brasil e contribuíram para o desenvolvimento de uma nova pátria. Leitura recomendável para educadores e jovens empenhados na construção de seus projetos de vida.

Livro: Onde estão as flores? Autor : Ilko Minev
Editora Virgilae, 2014

Lancamento 02.12.13 na Livraria da Vila Shopping Higienopolis, São Paulo
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28 August 2013

Discurso de Martin Luther King Jr. - I Have a Dream

Título: Eu tenho um sonho

Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.
Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre.
Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.
Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes".

Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranqüilizante do gradualismo.
Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia.
Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.
Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre

. Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro:

"Livre afinal, livre afinal.

Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal.
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20 June 2013

Cidadãos, barricadas e a vaia que eclodiu sobre a nação

Artigo publicado no Jornal A Crítica em 20 de junho de 2013 - por Denis Benchimol Minev - denis.minev@gmail.com


O Brasil ouviu nesta semana uma vaia que ecoou do Oiapoque ao Chuí.  Somos (ou éramos) um país ainda de excessivo respeito à autoridade; a afronta pública da líder da nação mostrou ao brasileiro a possibilidade de enfrentamento direto, pessoal e intransferível, que é característica de democracias mas ausente na psico-formação do brasileiro.  

Nós cidadãos do Brasil historicamente não nos levantamos.  Os grandes atos de nossa história, antiga e recente (independência, proclamação da república, fim do governo militar, impeachment do Collor, dentre outros), foram construídos por acordos políticos e não por pressão popular esmagadora.  Exemplos: Collor incrivelmente nunca foi preso e foi permitido seu retorno ao Senado; nenhum militar, não importa o quão hediondos seus crimes durante a ditadura, foi preso por isso; os militares controlaram, a seu próprio ritmo, a redemocratização do país; nem mesmo nossa querida independência foi alcançada por vontade popular, mas sim por um acordo de pai para filho; a proclamação da república foi feita sem sangue, no tempo do monarca e não da vontade do povo; nem guilhotinamos o imperador, o deixamos fugir em paz.  Mais recentemente o Mensalão também não causou grande comoção social, afora postagens em redes sociais.  Nunca tomamos o Congresso ou o Palácio do Planalto, em toda nossa história.  “Diretas já” e “caras pintadas” foram momentos de clara importância mas particulares e isolados, sem as consequências alongadas de um levante psíquico.

O Brasil portanto não contem (ainda), no seu rol de possibilidades imaginárias, a auto-consciência de que o poder repousa nas mãos de seus cidadãos.  E estes, quando se levantam, podem mudar seu rumo como nação.  O reconhecimento de seu poder como povo soberano, acima do poder de seus governantes, deve ser o mais importante legado deste levante se ele for duradouro.  

O segundo mais importante legado deve ser a infiltração do medo nas autoridades e instituições.  Não o terror, mas o medo.  É preciso que o governo e instituições associadas compreendam que nós não somos (mais) mansos e nosso senso de fraqueza e pequenez perante autoridades não mais existe.  Autoridades o são para nos servir.  E devem ter medo, sim, de nos servir mal, desde o atendimento em hospitais, delegacias e escolas públicas até o governante de plantão.  Medo de aumentar uma tarifa de ônibus sem consulta.  Medo é mais adequado que respeito, que suspeito seria pedir muito.  É saudável que cidadãos guardem um grau (limitado) de respeito pelas instituições de poder; uma sociedade não funciona sem elas.  Mas o nosso nível é além de respeito, mais parecido com reverência e prostração.

Aos críticos do movimento, a resposta é que estes protestos fazem parte de um processo longo, de um povo tentando no escuro conhecer seu ambiente e suas possibilidades, enquanto educa suas próprias instituições (polícia, sistemas de educação, saúde, governos e prefeituras, dentre outros) das suas expectativas e limitada tolerância para mal tratamento.  É preciso paciência.  Talvez você chegue em casa mais tarde do trabalho.  Muitos dos argumentos dos manifestantes são conflitantes ou mesmo não fazem sentido.  Faz parte do processo de maturidade política de um povo.  Do outro lado (que pode ser dentro de 10 ou 50 anos), emergirá um país melhor.  O que não é aceitável, até por não ser verdade, é a usual postura de “é assim mesmo” e ignorá-los como baderneiros.  Não é assim mesmo.  Poucos são baderneiros.  

Para ilustrar essa possibilidade, gostaria de tomar os próximos parágrafos para lembrar o mais famoso levante popular do século passado, iniciado de forma não tão diferente do nosso.  No dia 10 de maio de 1968 acontecia em Paris um protesto estudantil que eventualmente paralizaria o país e derrubaria o governo.  Deixou o legado no imaginário local de que o povo francês é capaz de diretamente influenciar o curso de eventos, de que o cidadão não é impotente perante a mística de poder do estado.  A transformação de sua auto-imagem já dura mais de 40 anos e ressoa na eternidade a cada mega-protesto (e são muitos) que a população francesa conduz.  

20 mil estudantes protestavam em Paris por motivos paroquiais inicialmente (a rigidez da administração antiquada da Sorbonne e Nanterre); cresceu para uma revolta de jovens impacientes contra poderosos e inflexíveis, trazendo consigo causas ligadas ao fim do comunismo, o fim do capitalismo, fim das guerras, combinado com uma generosa dose de hormônios.  O impulso juvenil contra tudo antiquado, rígido e autoritário ganhou contornos que surpreenderam até os protagonistas, expandindo-se para Berlim, Roma, e Nova Iorque, sempre tomando forma contra governos, fossem eles de esquerda ou de direita.  Não é muito diferente de um protesto inicial contra a elevação da tarifa de ônibus ou uma vaia de uma presidente num importante evento.

Na França de 1968 emergia a geração do pós-Guerra, com enorme expansão da educação universitária, para a qual o mundo era cheio de possibilidade, os meios de comunicação (TVs principalmente) se disseminavam com as primeiras transmissões ao vivo e permitiam a impressão de um presente compartilhado.  No Brasil, nos últimos 20 anos, vimos a emersão da primeira geração de grande volume de estudantes universitários.  No bojo desta geração nasce um novo idealismo brasileiro, dentro da nossa 2a classe média, aquela que é morena, estuda a noite, abre um pequeno negócio e é desprovida de QI (quem indique).  Ela sonha não só com os produtos dos comerciais de TV, mas também com uma vida repleta de conquistas melhor definidas das novelas e romances, como diria o Prof. Roberto Mangabeira Unger.  Naturalmente não recebe as benesses do governo (estas reservada para a antiga classe média) e o vê com desconfiança.  A polícia e as instituições nem sempre estiveram ou estão do seu lado.

Em Paris, não se sabia como terminariam os protestos.  A sequência de eventos viu as reações do governo se tornarem cada vez mais agressivas.  Em múltiplos casos a polícia agrediu manifestantes com violência desmedida, enchendo as ruas que cercam as universidades parisienses de gás lacrimogênio e sangue.  Os estudantes responderam com fogo, fumaça e barricadas, de forma desorganizada mas consciente.  A TV, ao vivo, transmitiu para toda a França as imagens, o que fez com que protestos eclodissem em universidade em todo o país.  Lembra algum lugar?  De São Paulo a Manaus em menos de um dia.

Os próximos passos na França viram a adesão da sociedade em geral aos protestos (centrais sindicais e sociedade civil organizada como um todo).  Slogans como “Seja realista: demande o impossível” e “A Revolução é inacreditável por ser real” alimentaram os espíritos da nação nas semanas seguintes, criando um senso de comunidade dentre os protestantes e ao redor das barricadas que já tomavam grande parte das cidades francesas.  Os movimentos sindicais se juntaram aos protestos e paralizaram indústrias e transportes na França, finalmente colocando o governo de joelhos.  O general De Gaulle, presidente àquela altura, fugiu do país para a Alemanha com receio dos manifestantes invadirem o palácio presidencial e no dia 30 de maio dissolveu o congresso e convocou eleições antecipadas para a formação de um novo governo.  Com estas concessões, o povo iniciou o processo de retorno à vida.  Entretanto, o poder do imaginário, uma vez libertado, não retorna ao mesmo formato anterior.  A compreensão da parte de um povo de sua capacidade de ditar seus rumos é um conceito simples mas revolucionário.  Conflita com o “é assim mesmo” tão comum em nosso país.  

Como será que este processo evoluirá no Brasil?  Depende, em grande, de quem se juntará aos protestos e quem teria rabo preso e ficará ao lado de instituições opressivas desenhadas em uma outra era para atender interesses que hoje já não são mais maioria.  A 2a classe média busca o seu lugar num país que não está pronto a recebê-la -- nem nas ruas (vide engarrafamentos), nem nas universidades, nem nas escolas, delegacias e hospitais, nem no convívio social.  A antiga classe média vê seu espaço reduzido no funcionalismo público e nas profissões liberais, em meio a médicos cubanos e o avanço da 2a.  Somos um povo sem rumo.  O governo, perdido neste contexto, abandona seu papel de criador de uma visão de futuro coerente para o país em busca de paliativos.  Dilma tem virtudes, mas não é inspiradora; serviu bem como ministra.  Certamente não mereceu aplausos.  Não fez o seu papel, de presidente, de engrandecer o espírito de um povo a ser melhor e a buscar a própria redenção, como tanto Lula quanto Fernando Henrique fizeram, de formas diferentes.  

Portanto vá às ruas ver os seus co-cidadãos acordarem para as possibilidades da democracia e do governo do povo.  Essas não são possibilidades novas, árabes recentemente viveram momento semelhante.  Eu irei, pacificamente, empunhando o celular para gravar tudo e transmitir a um mundo cujos olhos estão tornados ao Brasil.

E mesmo que você não vá à rua, maravilhe-se de estar vivo para ver um povo (o seu) que deitava em berço não-tão-esplêndido se levantar e abrir os olhos para um mundo novo, com contornos de possibilidade nunca dantes vistos na nossa nação.  Longa vida ao Brasil.
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28 May 2013

A Zona Franca de Manaus vale a pena (parte 2)



Talvez não por coincidência, um novo artigo foi publicado criticando a Zona Franca de Manaus, desta vez pelo economista do BNDES Marcelo Miterhof, no jornal A Folha de São Paulo.  Cabe mencionar que críticas construtivas são sempre bem vindas e nos ajudam a aprimorar o modelo.  Entretanto, esta em particular não aparenta pertencer a esta tradição.

O “ilustre” economista critica três itens em particular: poucos resultados de P&D na indústria de eletro-eletrônicos, a inexistência de imposto de renda na Zona Franca desestimularia investimentos em P&D de acordo com a Lei do Bem e o setor de eletro-eletrônicos no PIM gera empregos com remuneração muito baixa.   Segundo o autor, estes três itens deveriam causar uma reflexão a respeito do atual modelo.  Comento a seguir a respeito de cada um.

Primeiro, o autor menciona o faturamento de R$34,6 bilhões do setor de eletro-eletrônicos e indica que as empresas do segmento teriam a obrigação de aplicar 5% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento.  Caso ele tivesse se incomodado de ler a legislação da Zona Franca, saberia que os 5% somente são devidos para bens de informática e não eletro-eletrônicos como um todo.  Dado que bens de informática compõem apenas 20% deste faturamento, o autor estimaria que R$1,7 bilhões é aplicado em P&D, quando este valor na verdade está mais próximo de R$350 milhões.  Óbvio que, se ele procura resultados para R$1,7 bilhões e a verdade é que apenas R$350 milhões são gastos, ele se decepcionará.  A pergunta que fica é se ele cometeu um “erro” matemático ou foi excesso de “criatividade”.

Segundo, o autor informa que a Zona Franca não paga imposto de renda.  Essa afirmação simplesmente não é verdadeira.  Há um incentivo parcial na ZF; quando no Brasil se paga 34% de IR/CS, na Zona Franca em alguns segmentos se paga 16,5%, o mesmo no norte e nordeste todo (surpreendentemente não mencionados).  Curioso que tal informação escape a um economista do BNDES.

Terceiro, o autor considera a média salarial do setor de eletro-eletrônicos (R$3.208) muito baixa, e suporta tal evidência com a média do pólo de duas rodas da ZF (R$4.702).  Entretanto, uma rápida consulta ao site da FIESP mostra que a média salarial da indústria no estado de São Paulo é de R$2.287; ou seja, num setor “ruim” da ZF se ganha 40% mais do que na média da indústria de São Paulo.  No segmento de duas rodas a remuneração na ZF é mais que o dobro da paulista.  Nada mal para a Zona Franca... 

Com tantos erros fáticos e dados manipulados, não é surpresa que o BNDES não compreenda a Amazônia e portanto não apareça por aqui.  Apenas como exemplo, o BNDES assumiu a gestão do Fundo Amazônia em 2009, recursos advindos de doação para a Amazônia da Noruega.  Além de engolir 3% ao ano em taxa de administração (altíssima comparada a qualquer instituição de mercado), ele decidiu como sede do Fundo Amazônia não Manaus, não Belém, mas... Rio de Janeiro.  Suspeito que administrá-lo a partir da praia de Ipanema deva ser realmente mais agradável do que na mosquitarada amazônica.  Só não é o certo. 

Existem, é claro, críticas legítimas à Zona Franca de Manaus.  Nossos economistas estão certamente prontos a debatê-la em busca de melhorá-la.  Entretanto, é preciso que ao menos as críticas sejam baseadas em informações corretas.  Cada um tem o direito a suas próprias opiniões, mas não a seus próprios dados.


Denis Benchimol Minev
denis.minev@gmail.com
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